sábado, 18 de outubro de 2008

Sem tempo.

Apressados e de olhar fixo no chão, descem os degraus ao compasso dos ponteiros. Parecem esquecidos de que em torno deles um mundo também gira. Brincam com as mãos e os pensamentos, fecham os olhos para enganar o sono, balançam-se sobre os pés, arregaçam, de minuto a minuto, as mangas para vislumbrar o mostrador que pouco ou nada mudou desde há pouco. É vício, é mania, é hábito. Os rostos são os de sempre, os de todos os dias. Batem com o pé no chão, assobiam algo irreconhecível, olham sem ver para todas as direcções como que em busca de algo que não chega, que já deveria ter chegado, que sabem que vai chegar. Uns sentam-se, outros levantam-se. Uns param, outros percorrem a plataforma. Uns folheiam à pressa uma revista repleta de títulos gordos e imagens grandes, outros lêem atentamente os artigos mais minúsculos. As crianças encostam as cabeças aos ombros das mães ou acabam de beber o leite com chocolate que não tiveram tempo de acabar antes de sair de casa. Ou talvez, que a mãe não teve tempo para deixar acabar antes de saírem de casa. Afinal, o tempo é coisa de gente grande. Só se aprende a ver as horas na escola, onde há alguém com tempo para ensinar. Até lá, vive-se na ignorância inocente de quem sabe ser feliz com tempo para o ser. Tudo porque não se sabe ler o tempo.
Ouve-se a música do arranque. E todos, de modo sincronizado e quase ensaiado, se aproximam do limite da plataforma. Em marcha lenta, a travagem é suave. Ouve-se aquele alarme ensurdecedor que desperta o mais adormecido dos corpos, a mais adormecida das almas. As portas recolhem. E num só impulso, uma multidão imensa tenta entrar em simultâneo sem pedir licença, como se estivesse certo de ter sido o primeiro a chegar à estação. Lá dentro, correm todos para os lugares vagos quando os que mais necessitam deles não podem correr. Resta-lhes ficar de pé aguardando a boa vontade que os manuais de etiqueta costumam ensinar e que há muito, não passa de mera obrigação. De novo, ouve-se o alarme ensurdecedor. As portas vão fechar. Ainda há quem corra, quem tente ser mais veloz que o fechar das portas. Mas chega apenas a tempo de embater contra elas deixando a mão escorregar pelo vidro, como quem se despede de algo “seu”. A desilusão no olhar e a conformidade fazem-no recuar, deixando partir quem chegou a tempo. Com tempo.
O negrume dos túneis, o balançar da carruagem, o calor do casaco abotoado até ao limite e o desejo de que a viagem não acabe e deixe fechar os olhos a quem não teve tempo para dormir. Os phones nos ouvidos não impedem que todos oiçam a mesma música. Telemóveis que tocam, conversas que se escutam sem querer, vidas que se conhecem, se partilham, se guardam em segredo como se da própria vida se tratasse. Primeira paragem. De cara engelhada pelas rugas que não disfarçam a idade consegue, por sorte ou mero acaso, agarrar-se ao jovem distante daquele mundo, mergulhado no seu mundo, que viajava mesmo ao seu lado quando de repente, perdeu o equilíbrio. “Obrigado”. “Não tem de quê”. Saem. Não há tempo para mais. E as palavras custam tempo.
O metro arranca. A renda, tirada como por magia daquele saco, ajuda a enganar o tempo. Linhas que se cruzam e entrecruzam ao sabor da vontade de quem comanda as agulhas sem hesitar. Uma quase máquina esquecida do tempo quando afinal, o ser humano não passa de uma máquina que só funciona alimentada por tempo. Um bebé chora. Um casal beija-se, abraça-se, implora por voltar atrás no tempo. Por enganar a despedida e ficar assim, parado no tempo, como se tivessem todo o tempo do mundo. Com medo de perder tempo, ela tenta falar por entre o beijo, jurar ser para sempre, jurar não haver tempo algum que os separe. Mais uma paragem. Ele vai. Ela fica. O tempo não pára. Ele ainda olha para trás. Mas ela já escondeu o rosto por entre as mãos. Ele ainda recua. Mas o alarme já soou na estação. Ele ainda corre. Mas as portas já fecharam. Ela deixa cair uma lágrima. Ele ainda grita. Ela já não ouve. Mas ainda sente. Ele já baixa o rosto, vencido. Ela ainda o procura na multidão. Ele ainda ergue o olhar. Ela ainda diz “amo-te” em silêncio, só com os lábios. Ele já não vê. Mas ainda sente. Ela vai. Ele fica. Acabou o tempo.
Passa o pedinte abanando a caixinha metálica das esmolas. Todos espreitam pelo canto do olho, poucos se desfazem de uma moeda. A criança deixa cair uma bolacha. O segurança percorre a carruagem. “Tire os pés de cima do banco por favor”. Estação terminal. Saem todos. Passo acelerado. É preciso ser o primeiro a validar o passe. É preciso ser o primeiro a subir as escadas rolantes que serviam do mesmo se não o fossem. É preciso ser o primeiro a encontrar a saída. É preciso ser o primeiro a chegar à superfície, ao mundo. Arregaça a manga, passaram 25 minutos desde a última vez que olhou para o mostrador. Já passou tanto tempo. Mas não há tempo para pensar no tempo que falta para o tempo acabar. Não há tempo a perder. Não há tempo para pensar. Não há tempo para olhar. Não há tempo para amar. Não há tempo para viver. Não há tempo.

4 comentários:

Patrícia de Oliveira disse...

Falta-nos sempre tempo.
Mesmo qd achamos q o conseguimos dominar, contrariar, o tempo surpreende-nos de várias maneiras. A mais dolorosa de todas, talvez, é a morte! A grande vicissitude da vida, em que o tempo se perde na memória longínqua do ser. De repente, já não somos e percebemos q nos faltou tempo para ser (o q quer q quisessemos ser!) ...

Patologia disse...

É bom poder ter acesso á tua escrita, a tua arte , um recanto onde mesmo com a distancia uma pessoa possa matar saudades ao ler tao belos textos com os quais fomos habituados , com os quais crescemos e os quais felizmente continuam a poder fazer parte da nossa vida .:)

tempo, coisa efemera.....

obrigado por partilhares a arte de bem escrever :)
beijo muito muito grande d saudade

A.M. disse...

Olha lá tu escreves e eu fotografo? ok?
Beijinhos

Ana Margarida Pinheiro disse...

Por vezes, as palavras de outro alguém tocam-nos de uma maneira tão especial e profunda que nos fazem reflectir.
Por vezes, essas mesmas palavras fazem-nos perceber que vivemos demasiado em função de projectos e ideias por falta de tempo.
Por vezes, o melhor é esquecer o tempo...
Mas...
Por vezes, é demasiado difícil.
Por vezes, é demasiado complicado.
Por vezes tornamos o complicado em impossível, e por vezes nem tentamos, nem agimos...
Às vezes damos por nós estupidamente a viver rotinas e não vemos que essas rotinas nos matam. O tempo ou a falta dele é um belo tema para dissertar...

Ainda bem que te decidiste a juntar-te aos bloguers.
Fazes-me sentir mais insignificante, mais pequenina, mas mais feliz por poder ler o que (tão bem) escreves =)
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